terça-feira, 27 de outubro de 2009

Párias brasileiros x Falácia das oportunidades


O desemprego é um dos piores males, senão o pior, que pode advir sobre o ser humano, perdendo somente para a falta de saúde. Entretanto, o desempregado contrai, em contrapartida, também esse mal primeiro, pois acaba sofrendo de depressão, perdendo sua sanidade, sua saúde...
A falta de meios para suster a si e aos seus tira do indivíduo o poder de decidir sobre a própria vida e tomar as rédeas de seu destino, subtrai-lhe o vigor e alquebra-lhe a alma, isolando-o às margens da sociedade, sem amigos e, muitas vezes, até sem os parentes. O desemprego, algoz cruel, tira do homem tudo que lhe é mais caro –sua dignidade– e o reduz a quase um nada existencial.
Porém, segundo os indicadores oficiais “a taxa de desemprego (a razão entre o total de desocupados e a população economicamente ativa) ficou em 7,2% em 2008,menor patamar desde1996” (IPEA)1 e “o número de trabalhadores com carteira de trabalho assinada no setor privado (9,5 milhões) também não se alterou nem em relação a agosto deste ano, nem em relação a setembro de 2008. Já o contingente de trabalhadores sem carteira assinada (2,8 milhões de pessoas) ficou estável em relação a agosto, mas caiu 6,9% em relação a setembro de 2008” (IBGE)2. Há de se lembrar que apenas seis regiões definem o comportamento de emprego e desemprego em todo o país (São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador, Porto Alegre e Recife) e, portanto, um país com 27 estados e 5.600 municípios fica reduzido a seis regiões metropolitanas!
Abrindo-se semanalmente os jornais correlatos (“Só Empregos”, “Mais Empregos” para citar alguns), as inúmeras oportunidades parecem corroborar os índices. Contudo, basta acessar esses meios por duas, três semanas consecutivas para se ter a nítida impressão de que as vagas oferecidas, na maioria por agência de empregos, parecem ser sempre as mesmas.
O pobre coitado, que ainda guarda algum resquício de ânimo esperançoso, não consegue entender por que não foi chamado sequer para uma entrevista já que ele candidatou-se a algumas daquelas vagas por cadastro nos sites, visitando e entregando pessoalmente seu currículo ou, por via das dúvidas, preenchendo mesmo as fichas. Abatido e confuso, ele ainda não percebe o contexto no qual está inserido. Vejamos...
Primeiro, os empregadores que, devido à oferta e demanda, se posicionam em dois grupos:
a) Os que pretendem pagar na faixa de 800,00 a 1.000, por considerarem um “excelente” salário, são mais exigentes: superior completo, inglês e espanhol fluentes, informática avançada, pós graduação...
b) Os que pretendem pagar na faixa de 500,00 a 700,00, às vezes, não requerem “tanto”: ensino médio completo, ou superior cursando, inglês intermediário...
E entre os dois está o nosso profissional pária. Apesar da experiência prática de anos exercendo a função, não atende a nenhum dos dois grupos. Não preenche todos os requisitos do primeiro e, portanto, não é nem encaminhado para uma entrevista; ou é qualificado demais para o 2º. que, temeroso de perdê-lo dali a poucos meses para uma melhor oferta, não o contrata.
Em segundo, há as agências de emprego que, justamente por serem “especializadas” em recursos humanos, não deveriam comportar-se tão desumanamente, transformando-se em verdadeiros abatedouros de fé e dignidades. Devido à abundância de candidatos esbanjam incompetência exigindo competência: não consultam seus próprios cadastros (sites), não entrevistam e quando o fazem, para uma determinada vaga, não dão a menor satisfação do resultado, obrigando os infelizes, que quase explodem de ansiedade, a humilharem-se em constantes ligações e desculpas quando um simples e-mail (daqueles padrões quando as pessoas se ausentam ou viajam: “Lamentamos informar, mas a vaga para a qual se candidatou foi preenchida. Entretanto, seu cadastro continua ativo para futuras oportunidades. Mantenha-o atualizado”) já seria suficiente. Afinal, são, somente, pessoas esmolando emprego.
Em terceiro, há as “Assessorias, consultorias, gestão em RH”: urubus sentindo cheiro de carniça! Engodo para a venda de prestação de serviços. O alvo desses “consultores” não são indivíduos com baixa qualificação, claro, mas justamente os párias já mencionados que se encontram altamente fragilizados. Requisitam-no, na maioria das vezes não “abrindo o jogo”: existe a possibilidade de uma vaga, o currículo é ótimo, não haverá o menor problema em recolocação, etc...
O abalado desempregado dirige-se para lá, gastando mais dinheiro e carregando, uma vez mais, sobre as costas curvadas pelo desespero aquilo que o impulsiona a levantar-se todas as manhãs: esperança. Uma vez notificado de que há um contrato, um valor a ser pago, à vista, pela consultoria e mais o valor do primeiro salário, este dividido em 2 ou 3 vezes, o infeliz, que já está lá, mentalmente faz cálculos, estuda as possibilidades: o “profissional” que está à sua frente possui os recursos, tem contatos e experiência, pertence ao meio... Assinado o contrato e paga a importância reivindicada advém-lhe mais dissabores: inúmeros dias sem notícias, testes QUATI e psicotécnicos marcados com intervalos mensais (para fazer e para apanhar) e lá se vão, no mínimo, quatro meses. Quanto às indicações, o excelente currículo passou a ter dificuldades mercadológicas, receiam contratação para cargos inferiores, para os altos cargos há sempre um requisito a preencher, e sobre “aquela” vaga, o empregador contratou com terceiros...
Finalmente, há o governo com pronunciamentos e discursos de palanque. As prefeituras, a exemplo de Curitiba, disponibilizam espaços públicos, arcam com os custos de montagem de barracas e organizam mutirões de emprego. Porém, sobra-lhe inocência (será?), falta-lhes interesse, ou contingente, para apurar, de fato, o quanto de resultado surte o dispêndio aos cofres públicos para ampliar as oportunidades àqueles que não têm acesso à internet e aos endereços das agências. E, além do mais, há ampla cobertura televisiva.
Para lá também se dirige nosso personagem já sem personalidade. E o que ele vê? As mesmas agências com as mesmíssimas vagas, cujas atendentes, que sequer o reconhecem, estendem-lhe aquela mesma ficha, que ele já preenchera, ou solicitam-lhe o currículo que já, também antes, ele fornecera.
Mais alguns dias... Debatendo-se, então, nosso indivíduo nesse mar revolto (ou será uma marolinha?) tenta lembrar algo que lhe disseram sobre auto-estima. Não consegue. Ao longe, ouvindo gritos de “Viva, o Brasil sediará as olimpíadas em 2016!”, acaba por naufragar o infortunado cidadão brasileiro que há muito não se sente nem gente que dirá cidadão!

Notas:
1 - http://www.ipea.gov.br/sites/000/2/comunicado_presidencia/09_10_01_ComunicaPresi_31_Apresentacao_PNAD2008_MTrab.pdf
2 - http://www.ibge.gov.br/home/presidencia/noticias/noticia_visualiza.php?id_noticia=1481&id_pagina=1

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